Delírios
Encosta a porta com cautela e deixe-a propositalmente bater. Tranca com cadeados e perca as chaves por entre a nossa bagunça. Um caso e um casaco de lã. Quatro mãos de dedos gelados. Se perde por perto, já que eu não posso mais sair para te procurar. Não me encontre, não saia mais daqui.
Fica. Pula a janela. Fica. Encontra-me na próxima esquina. Fica. De manhã. Não me acorda. Não volta.
Apaga a luz e deixa meu sorriso iluminar. O você estar e o você faltar machucam na mesma proporção. Faltam-me verbos e eu erro a conjugação. Por que o riso bobo ainda está aqui? Nós ainda respiramos e já passou do meio-dia. Supere.
No mais barulhento dos sussurros, diz que sente saudade e que está bem melhor sem mim. Não apareça na madrugada e invada meu colchão às duas da matina. Não se atrase! Não insista!
Não mantenha contato, mas me lembre de que se lembra de mim. Você lembra? Fique aqui. O cheiro mentolado do carpete ainda obstrui meu olfato. Fico na ânsia por mais um beijo de chiclete. Ânsia.
Faça uma lista com os meus defeitos e com um ímã grude na geladeira. Leia-os para mim enquanto me agarra pela cintura. E da cozinha para a sala. Esqueça-me e vai tomar um ar. Leva-me junto.
É que eu quero cantar com você na chuva, mas entenda, já não posso me molhar e você já está rouco. Fique imobilizado e acompanhe o movimento que o meu corpo faz quando os meus lábios tocam os teus.
Cospe-me e me mastiga. Joga-me fora e me guarda na escrivaninha. Arrasta-me para bem longe daqui. Engole-me. Devora-me. Tô saindo pela porta principal.
Onde estão as chaves?
Me salva agora e não interrompe o ato de me afogar. É que, quando se trata de você, eu sempre me esqueço de nadar contra a maré. Sem querer, a correnteza me arrastou e estou ao lado do teu castelo de areia. Mais uma vez. E a tua areia, meu amor, é a movediça.
Já me odeia e já não vive sem mim. Sempre foi ou tudo ou nada. Amei-te tanto e por isso eu parti. Mas ainda estou à procura das chaves. Elas estão em suas mãos.
Bato o pé, faço birra no espelho e não sossego até voltar a ver teu reflexo ali. E eu – já faz tempo – digo que desisti. E um “para sempre” que tem prazo de validade. Todos são assim. Dá meia volta e dança mais uma vez para mim.
Você pode ver? Estou perdida em meio a essa confusão que se formou aqui embaixo do tapete. O amor descompromissado enrolado por entre a manta que cobria o sofá. E as gavetas de documentos vasculhados à procura de um resquício mínimo de expectativas. E eu me tornei das bagunças a maior.
É que o amor pouco sabe a diferença entre um “não” esperançoso e um “sim” espontâneo. Ficamos no “talvez”. E eu que já fui embora há tempos, já nem sei por que, ainda estou aqui.
(Autora: Mainá Belli)
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Olá, nuss como seu blog é incrivel! o layout o desing, seus posts, é tudo muito perfeito por aqui. Eu já acompanho aqui por um tempinho mas nunca me atrevi a comentar. parabéns pelo blog, e Sucesso! Ps: se puder visitar meu blog, e se gostar seguir:
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Ah, que graça o seu comentário!! Fico muito feliz com seu feedback positivo. Claro, vou checar seu blog também!
Adorei, apareça mais vezes por aqui!! 😉
Adorei o texto, Mainá! 🙂 Você conseguiu expressar com palavras esse sentimento de “conflito interno”. A razão em conflito com a emoção. Acredito que nesse texto, “razão” podemos entender como ideias influenciadas pelo moralismo (sim, ele está no meio de nós) ou ainda como uma resposta interna para algo que as vezes está diante dos nossos olhos, mas custamos adimitir… “será que não estamos amando sozinha?”. Prefiro a primeira opção, pois é mais reversível. hehehe Beijos
Eu apenas a-m-e-i seu comentário, Dani! Complementou meu texto, totalmente!
É bem isso, o conflito interno que a gente atravessa algumas vezes na vida – inclusive no amor. Quando a gente tá “amando sozinho” é hora de decidir partir, ainda que machuque – e machuca pra c%$#@! HAHAHA
Mas decisões passadas fazem de nós o que somos hoje; se tomadas do jeito coreto, ficamos mais fortes com o tempo!
Obrigada de novo!!!!!!!!!